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Discografia Comentada - Mastodon

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Texto publicado originalmente no site Consultoria do Rock

O Mastodon, como o nome sugere, é um gigante. Dá pra afirmar sem medo que a banda de  Atlanta criada em 1999 é a melhor e mais relevante do  cenário Heavy Metal dos últimos 15 anos. Formado por Brent Hinds (Guitarra e Vocais), Troy Sanders (Baixo e Vocais), Bill Kalliher (Guitarra e Vocais) e Brann Dailor (Bateria e Vocais), o grupo não tem medo de inovar. Ouvir sua discografia na sequência é uma viagem, e um álbum é completamente diferente do outro. É uma das poucas bandas que mantém o gênero indo pra frente e com sobrevida. Ao contrário de alguns nomes que apenas tentam emular a sonoridade do passado, o quarteto consegue absorver todas as suas influências e ao mesmo tempo acrescentar outros elementos e muita personalidade, que somados à qualidade de composição e execução dos músicos, torna seu som incomparável. Sludge, thrash, death, hard rock, stoner, psicodelia e rock progressivo. É possível encontrar tudo isso no riquíssimo universo sonoro do Mastodon. Venha conhecer o trabalho dos caras nessa Discografia Comentada. Garanto que ao final da leitura você vai ganhar uma nova banda favorita.



 Lifesblood (EP) [2001]
O EP de estreia do Mastodon traz um sludge bem direto e visceral, com riffs agressivos, vocais urrados e até um flerte com o death metal. O que chama atenção aqui é a performance do monstruoso batera Brann Dailor, que consegue encaixar uma infinidade de viradas e quebras de andamento em meio aos riffs da dupla Hinds/Kalliher. Uma curiosidade: Todas as faixas têm uma introdução com trechos de diálogos de filmes, como Um Estranho no Ninho e O Julgamento de Nuremberg. Está longe de ser o Mastodon em sua melhor forma, mas como primeiro registro já mostra uma banda com muita personalidade, crueza e garra.
 Remission [2002]
No já longínquo ano de 2002, o cenário da música pesada estava bastante confuso. Enquanto alguns grupos consagrados como Iron Maiden e Metallica ensaiavam um retorno, o mainstream era dominado pelo tão falado nu metal, e do outro lado, o power metal (ou metal melódico) se alastrava. Foi em meio a essa bagunça que o Mastodon lançou seu primeiro full length. Os membros afirmavam que pretendiam ter um disco dedicado a cada um dos quatro elementos. Remission seria o representante do fogo. Apesar de não ser um álbum conceitual, algumas faixas remetem à essa temática. Na questão sonora, temos um sludge pesadíssimo, da escola Crowbar e Eyehategod, com riffs lamacentos, mesclado à complexidade técnica de bandas como Dillinger Escape Plan e Converge. Mesmo mantendo a agressividade do EP Lifesblood(2001), o disco já mostra algumas nuances que o quarteto passaria a explorar em seus próximos trabalhos, como faixas mais longas e passagens melódicas e atmosféricas. E são justamente essas canções que se destacam e provam que o Mastodon é mais do que apenas uma banda barulhenta. É claro que a porradaria de “March Of The Fire Ants”, “Crusher Destroyer” e “Burning Man” estão longe (muito longe, aliás) de serem ruins, mas não são tão interessantes quanto as músicas mais experimentais. “Ol’e Nessie”, por exemplo, abre com uma guitarra psicodélica que é logo acompanhada de baixo e bateria. As belas melodias criam uma atmosfera viajante, cortada por um riff poderoso e os berros de Troy Sanders. “Trainwreck” segue a mesma linha, com as guitarras dobrando a melodia, e no final os riffs abrem caminho para os vocais agressivos e a bateria insana. O instrumental “Elephant Man” encerra os trabalhos de maneira contida, mostrando o lado mais laid back dos caras. O maior destaque do disco é o baterista Brann Dailor, um monstro incansável em todas as faixas. Se alguém que nunca ouviu o Mastodon começar a ouvir sua discografia pela ordem cronológica, pode se assustar com Remission, já que ele não representa a sonoridade que marcaria a banda anos depois, mas fica como um registro bruto, sincero e bastante promissor.

Leviathan [2004]
Se com o seu disco de estreia, o Mastodon se mostrou uma revelação, com Leviathan eles se afirmaram como realidade. Uma das tarefas mais difíceis de uma banda é passar no teste do segundo disco, ainda mais quando a estreia é bem recebida. E o Mastodon cumpriu esse objetivo com louvor.Leviathan é um álbum conceitual inspirado no romance de Herman Melville, Moby Dick, e seguindo a mitologia do grupo, representa o elemento água. Musicalmente, a banda continua apostando num som bastante direto, mas acrescenta alguns toques de rock progressivo e melodias, apimentando seu sludge característico, e deixando as composições ainda mais interessantes. Mas isso não significa que tiraram o pé do acelerador: A agressividade respinga para todos os lados, apenas mais diluída entre as faixas. O guitarrista Brent Hinds passa a dividir os vocais com Troy Sanders, e aparece nos momentos mais melódicos, enquanto o baixista fica responsável pelas partes agressivas. Sua presença é mais evidente na cadenciada ”Seabeast”. O trabalho de guitarras também é uma evolução perceptível. Se em Remission a dupla Hinds/Kaliher apostava em palhetadas violentas, aqui eles alternam entre riffs grudentos, passagens atmosféricas, e licks de guitarras gêmeas. “Blood and Thunder”, a primeira faixa,  talvez seja o mair clássico da banda, com seu riff marcante e Dailor entrando com uma virada inacreditável. “Iron Tusk” abre com as sempre ignorantes viradas de Brann Dailor e é sem dúvida a mais pesada do disco, com um timbre de guitarra gravíssimo e não deve em nada pra qualquer banda de thrash metal. “Megalodon” é um exemplo de composição com várias mudanças climáticas, que seriam exploradas posteriormente, ao lado de “Hearts Alive” , de treze minutos, que já mostra as novas influências de rock progressivo, sem perder o vigor. “Joseph Merrick”, marca o início de uma tradição que seria mantida em alguns dos discos seguintes, de encerrar a tracklist com uma faixa instrumental. Leviathan representou uma mudança bem grande em relação a Remission (2002), e tornou o Mastodon uma banda de reconhecimento no cenário do heavy metal. Com dois discos de altíssima qualidade na conta, eles ganharam um contrato com uma major, o que causou arrepio em alguns por medo de a banda tornar-se mais acessível. Dois anos depois, o grupo surpreenderia, sim. Mas de maneira positiva.




Blood Mountain [2006]
Em 2005, de contrato assinado com a Warner, o Mastodon poderia ter ficado na zona de conforto e continuar apostando na sonoridade de Leviathan, ou aproveitar sua entrada em um selo grande para aumentar o alcance de público e gravar um trabalho mais acessível. Mas longe disso, eles seguiram expandindo seus limites.Blood Mountain é mais um disco conceitual, dessa vez com uma história criada pela própria banda. O elemento representado é a terra. O roteiro é o seguinte: Um herói é escolhido pelos deuses para subir uma perigosa montanha e encontrar uma caveira de cristal, e no caminho deve passar por criaturas fantásticas como homens-árvore, gigantes adormecidos, um ciclope chamado Cysquatch e o Deus Gelo. Diz-se que a história seria uma metáfora relacionada ao próprio Mastodon, na qual a banda seria o herói, a Warner a montanha e a caveira de cristal o reconhecimento pelo trabalho. Segundo Troy Sanders, “O disco fala sobre escalar uma montanha e a variedade de coisas que podem acontecer com você quando está perdido num lugar desse. Você está com fome, alucinando, encontrando criaturas estranhas. Está sendo caçado. É sobre toda essa luta”. Apesar de tudo isso ser muito interessante e contribuir ainda mais para o rico universo do grupo, o que conta é a música. Se antes o quarteto já tinha alguns flertes com o rock progressivo, aqui foi que se concretizou o casamento. Além das influências de nomes como Genesis e Rush nas composições, o instrumental é ainda mais intricado. Todos os músicos brilham e demonstram sua musicalidade e virtuosismo de forma plena, mas de maneira nenhuma deixando isso prevalecer sobre a qualidade das canções. O trabalho de guitarras sofre mudanças mais uma vez. Dessa vez, os riffs e licks são mais diversificados, bebendo menos na escola Black Sabbath e Crowbar e mais na fonte do Wishbone Ash, King Crimson e até de power metal, investindo também em texturas bem trabalhadas, típicas do prog setentista, mas claro sem deixar a distorção e agressividade de lado. Já os solos, que não eram uma característica forte do som mastodôntico, começam a dar mais as caras, e sempre muito bem colocados, como em “Crystal Skull” e “Colony Of Birchmen”, músicas que contam com as participações de Scott Kelly, do Neurosis – uma das maiores influências da banda – na primeira e Josh Homme (QOTSA), fã declarado da banda, na segunda. O vocalista Cedric-Bixler Zavala do The Mars Volta, aparece em “Siberian Divide”. Brann Dailor continua a brilhar, aperfeiçoando cada vez mais seu estilo, que une a precisão do rock progressivo, as quebras de andamento do jazz fusion e a agressividade do thrash metal. Só a introdução de “The Wolf Is Loose” já bastaria para colocá-lo entre os melhores bateristas dos últimos anos. Apesar da musicalidade mais complexa, o uso de melodias é ainda maior do que no disco anterior, com Troy Sanders diminuindo a agressividade de seus vocais em alguns momentos (“Hunters Of The Sky”) e Brent Hinds aparecendo praticamente como um segundo vocalista. A diversidade do álbum é impressionante.  “Sleeping Giant” é a mais viajante, num estilo de composição que já se tornou marca registrada do grupo. “Capillarian Crest” soa como um casamento entre o Yes e o Metallica. E como já é de praxe, o disco fecha com um instrumental,  “Pendulous Skin”, que conta com um belíssimo e longo solo de guitarra de Hinds. Cercado de muita espera após o sucesso de “Leviathan” e “Remission”, o álbum superou as expectativas e colocou de vez o Mastodon entre os gigantes do gênero.

Crack The Skye [2009]
Após três discos de altíssimo nível, o que esperar do Mastodon? Até aqui os malucos de Atlanta mostraram-se extremamente inquietos e sempre em busca de evoluir sua sonoridade. E após atingir um status de banda gigante com Blood Mountain, eles resolveram continuar mudando. Crack The Skye mantém as influências progressivas de seu antecessor, dessa vez mais na construção climática das músicas do que na complexidade instrumental. Seguindo a tradição, o álbum também é conceitual e conta a seguinte história: Um garoto paraplégico encontra uma maneira de se locomover  através de viagens astrais, em que ele sai de seu próprio corpo. Em uma dessas jornadas, o sujeito vai até o espaço e chega perto demais do Sol, queimando seu cordão umbilical dourado e ficando à deriva. Solto no espaço, ele é sugado por um buraco de minhoca que o leva a um reino espiritual, onde conversa com os espíritos e diz não estar morto. Eles decidem ajudá-lo e o mandam sua alma para a Rússia Czarista, encarnada no corpo de Rasputin. Quando Rasputin é assassinado, sua própria alma e a do garoto atravessam uma brecha no céu (Crack in The Sky), e a alma de Rasputin tem a missão de guiar a da criança de volta para o seu corpo, já que a essa altura seus pais o descobriram e acreditam que esteja morto. O nome “Crack The Skye” é um trocadilho com a palavra “céu” e o nome da irmã de Brann Dailor (Skye), que se suicidou quando tinha 14 anos, e a faixa-título é dedicada à ela e tem mais uma vez a participação de Scott Kelly do Neurosis, que além dos vocais, ajudou na letra. As melodias que já vinham sendo um tempero a mais desdeLeviathan (2004), definitivamente ganham força. Mas talvez a mudança mais sentida seja nos vocais. Troy Sanders abandona de vez seu urro agressivo em função de linhas vocais mais melódicas. O baixista que sempre foi o principal vocalista do grupo, agora divide permanentemente o microfone com Brent Hinds. E pela primeira vez, Brann Dailor também aparece cantando em duas faixas. “Oblivion” que abre o disco, representa bem essa alternância de vozes, com Dailor e Sanders fazendo os versos e Hinds o refrão, que aliás é um dos mais grudentos da banda, e representa o clímax após uma introdução viajante e versos pesados, com os riffs de guitarra ditando o ritmo. O solo de Hinds, melódico e atmosférico é de arrepiar. A evolução do cara como músico é perceptível. Se essa faixa não te ganhar, é bem possível que “Divinations” consiga. Uma intro no banjo inicia os trabalhos, que é seguido por uma guitarra em looping, bem típica do Mastodon. O refrão não é menos cativante. Quem sentia falta das composições mais longas, Crack The Skye nos brinda com a suíte “The Czar”, dividida em quatro partes, que traz uma overdose de riffs, psicodelia, passagens melódicas e viajantes, e um belíssimo solo de guitarra. Tudo isso em quase 11 minutos de delírio musical. Como se não bastasse, o disco fecha com “The Last Baron”, uma declaração de amor de 13 minutos ao rock progressivo setentista. Pela primeira vez, a banda quebra a tradição de ter um álbum dedicado a um dos elementos naturais, mas em entrevista os membros afirmaram que Crack The Skye representa o éter. Apesar de não fechar o “ciclo” dos quatro elementos, por não ter nenhum disco representando o ar, Crack The Skye marca o fim de um período do Mastodon, e isso só ficaria claro com o seu disco seguinte, dois anos mais tarde.

Mastodon-The_HunterThe Hunter [2011]
A essa altura, o Mastodon poderia ter encerrado as atividades e teria uma discografia impecável na conta e um dos trabalhos mais geniais e criativos do século, dentro do heavy metal. Mas, felizmente, eles só não acabaram como conseguiram se reinventar novamente e de maneira impressionante. É preciso muitos culhões para uma banda conhecida por seus discos conceituais, temas complexos e musicalidade intrincada deixar tudo isso para trás, e simplesmente se focar em canções mais simples e melodias cativantes. E foi exatamente que o Mastodon fez em The Hunter. O nome é uma homenagem ao irmão de Brent Hinds, que morreu durante uma caçada, na época da gravação do álbum. Pela primeira vez desdeRemission (2002), o grupo não lança um trabalho conceitual, e deixa de lado as influências progressivas para mostrar também sua admiração pelo rock alternativo, o heavy metal e o stoner. As faixas, que sempre foram bem longas, dessa vez se mantém na média dos 4 minutos. A construção das músicas, que contava com várias mudanças de andamento e variações climáticas dão lugar a dinâmica clássica de introdução/verso/refrão. A mudança já é sentida de cara na primeira faixa, com um solo de guitarras gêmeas da melhor escola Thin Lizzy. “Curl Of The Burl” começa com um riff musculoso, lamacento e é sem dúvida a mais acessível do álbum, com refrão grudento e as harmonias vocais de Sanders, Hinds e Dailor. Apesar do começo arrebatador, a poeira começa a baixar a partir da quarta faixa, “Stargasm”, com aquela atmosfera viajante que a banda sempre soube fazer muito bem. O clima espacial se mantém em “Octopus Has No Friends”, – com Dailor participando mais uma vez dos vocais- “All The Heavy Lifting”, e na faixa-título, que traz um solo psicódelico maravilhoso de Brent Hinds. A “Creature Lives”, é a estreia de Brann Dailor como compositor e também a primeira faixa em que ele canta inteira sozinho, e lembra bastante o material mais experimental do Black Sabbath. O stoner de “Spectrelight” conta mais uma vez com os vocais rasgados de Scott Kelly, e guitarras gêmeas duelando. A bonita “The Sparrow” com seu maravilhoso solo fuzzeado fecha a conta, e encerra tudo com a frase “Pursue happiness with diligence” (Persiga a felicidade com afinco). The Hunter fez alguns fãs mais puristas torcerem o nariz, mas provou mais uma vez versatilidade do Mastodon e que a banda não tem medo nenhum de experimentar algo mais acessível sem deixar de lado suas características marcantes.


Once More ‘Round The Sun [2014]
Se a mudança do Mastodon para um som mais acessível em The Hunter(2011) assustou algumas pessoas, esse baque foi ainda maior no recém lançado,Once More ‘Round The Sun. O disco é ainda mais direto, com composições simples no formato canção, riffs fortes, solos de guitarra grudentos e refrãos ganchudos. Brann Dailor que vinha ganhando espaço como vocalista, agora assume definitivamente o papel, e toma conta do álbum, cantando em 8 das 11 faixas. Sua voz mais melódica e limpa combina perfeitamente com o novo momento do Mastodon. Não há mais vestígios dos vocais agressivos de Troy Sanders, que parece estar cada vez mais dominando sua voz. Brent Hinds que tem um timbre bem parecido com o de Zakk Wylde, também deu uma suavizada. A faixa-título inclusive lembra um cruzamento do Black Label Society com o Monster Magnet. Sua parceria nas seis cordas com Bill Kalliher segue forte e inspirada, e os solos só melhoram a cada disco. É impressionante como Hinds se mostra versátil, utilizando de riffs lamacentos, psicodelia e toques de hard rock setentista. Além do tradicional sludge, a banda incorpora influências de Alice in Chains e Deftones, principalmente, deixando mais uma vez de lado os elementos de rock progressivo. Mesmo mudando e adaptando sua sonoridade, o modo de compor e alternando os estilos, o Mastodon ainda consegue soar como o Mastodon. O grupo conseguiu tornar seu trabalho muito mais acessível e ainda assim manter algumas das características que fizeram seu nome. A trinca que abre o disco é pra ganhar definitivamente o ouvinte. Os primeiros acordes de “Tread Lightly” dão entender que vem uma psicodelia braba pela frente, mas logo vem a típica dobradinha riff de guitarra/virada de bateria e estamos diante de um Mastodon puro. Pesadíssimo e com momentos que remetem ao rock alternativo dos anos 90. A grudentíssima “The Motherload” traz Dailor comandando os vocais, e tem o refrão mais memorável do ano. É talvez a faixa mais “pop” de toda a carreira da banda. Na sequência vem o single “High Road”, que havia sido divulgado antes do lançamento do disco, e sem dúvida um grande destaque, com mais um refrão de ficar na cabeça por dias. “Asleep in The Deep” tem participação de Valient Himself do Valient Thorr e o tecladista Ikey Owens do The Mars Volta, e poderia estar facilmente em Leviathan (2004) ou Blood Mountain (2006).  As meninas da banda The Coathangers também dão uma canja em “Aunt Lisa”. Para quem sente falta das faixas mais épicas, “Diamond in The Witch House” está aí para tapar esse buraco, encerrando o álbum com seus quase 8 minutos, e como já é de praxe, tem a participação de Scott Kelly. Once ‘More Round The Sun,mostra que o Mastodon não tem nenhuma preocupaçãoem agradar um nicho de fãs, e está sempre procurando amadurecer e buscar novos direcionamentos, e por isso carrega hoje ao lado de alguns outros poucos nomes, o título da maior e mais importante banda de heavy metal. A pergunta que fica agora é: O que esperar dos próximos trabalhos? Não dá pra saber. Que eles nunca parem de surpreendem e continuem nos presenteando com trabalhos de tão alto nível. Essa inquietude e sede de mudança, que a banda tem de sobra, é uma injeção de ânimo no gênero, algo que ele carecia há muito tempo.

Playlist TF - Free

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A década de 70 foi tão produtiva e o rock se desdobrou em tantos gêneros e subgêneros que algumas bandas ficaram difíceis de classificar. O grupo inglês Free, foi jogado no balaio do Hard setentista, e por isso muitas vezes o fã do estilo torce o nariz quando ouve o som pela primeira vez, já que está longe da quebradeira de um Grand Funk Railroad o um Cactus ou do proto-metal místico de Rainbow e Blue Öyster Cult. O som do Free é mais domado, malemolente. Recheado de balanço e malícia. A cozinha  formada pelo prodígio Andy Fraser e o competente Simon Kirke é puro groove, sem distorção no baixo  ou viradas insanas de bateria. O primoroso guitarrista Paul Kossoff não toca riffs ou solos faíscantes. Sua pegada é mais sutil. É como se ele acariciasse a Les Paul levemente distorcida. O lendário Paul Rodgers tem uma bela voz rouca e grave, diferente dos agudos estridentes que tomavam conta do rock da época.

O Free consagrou-se com seu terceiro disco Fire and Water de 1970, mas as vendas irregulares, brigas entre integrantes e problemas com drogas levaram ao fim da banda duas vezes, com uma tentativa fracassada de retorno em 1973 e a ruptura definitiva no mesmo ano. Em 1975, uma complicação devido ao uso de drogas interrompeu precocemente a vida de Kossoff, um dos guitarristas mais promissores de sua geração. Ele tinha apenas 25 anos. Andy Fraser teve alguns discos solos, ao longo do tempo, mas nunca alcançou o mesmo sucesso, apesar de ter sido um baixista talentoso e extremamente influente. Ele faleceu em março deste ano, de AIDS, aos 62 anos. Paul Rodgers e Simon Kirke e Paul Rodgers formaram o Bad Company ainda nos anos 70, além de participarem de outros projetos, mantendo-se na ativa até hoje.

Essa playlist traz 20 faixas para conhecer o maravilhoso trabalho do Free, uma banda de certa forma ainda subestimada. Enjoy!



Disco da Madrugada: Tom Waits - Closing Time (1973)

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Hoje Tom Waits pode ser mais famoso por seus discos experimentais, anti-convencionais e transgressores, mas seu começo de carreira não foi bem assim. Parte do cast do selo Asylum, que abrigava artistas de soft-rock e folk como Eagles, Jackson Browne e Linda Rondstadt, Waits estreia em estúdio com um trabalho repleto de baladas jazzísticas calcadas no piano e arranjos minimalistas. O álbum cai perfeitamente na noite. É uma trilha sonora não oficial das madrugada. Quase um disco conceitual, desde a belíssima capa e título até as letras, tipicamente setentistas, evocando toda a poesia urbana de Waits, e botando mais um prego no caixão de toda a euforia e otimismo do Flower Power. Soldados morriam aos montes no Vietnã, a heroína invadia as ruas, Charles Manson, o hippie mais célebre havia comandando uma matança sem precedentes. O começo dos anos 70 marcou o êxodo urbano do rock, e as canções bicho-grilo sobre natureza, amor livre e lendas folclóricas deram lugar à histórias de bêbados, prostitutas, viciados, mendigos e todas as demais personagens da cidade grande. Closing Time é assim. Soa triste sem ser depressivo. Melancólico e bonito, elegante e marginal. Em meio à fumaça de cigarros, copos de bebida e cheiro de urina, Tom Waits canta sobre amor, solidão, sexo e relacionamentos fracassados. Dá voz aos perdedores e outsiders com um sarcasmo e toque humorístico únicos e uma interpretação doída e sincera, distante de suas performances debochadas e quase guturais dos anos 80.  Dê o play e curta sem pressa, é uma ótima companhia.


Playlist TF - Queen

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O Queen é uma banda incomparável. Foi do hard setentista ao pop dançante passando com excelência pelo metal, progressivo e rock de arena. Tudo isso soando extremamente original e inimitável e com uma discografia bastante consistente, salvo pouquíssimos tropeços (alô Hot Space). Como se não bastasse, ainda contavam com o melhor frontman da história do rock, um guitarrista genial e de timbre único, um baixista que compunha brilhantemente e um batera que soava diferente e ainda tinha uma ótima voz.

A banda sabia como poucos aproveitar os recursos do estúdio, trabalhando duro na produção do discos e sendo inovadora nos overdubs de vozes e guitarras e usando tudo o que tinham em mãos para incrementar seu som. O mais incrível é que ao vivo eles não deixavam barato e graças as performances e o carisma de Freddie Mercury faziam um dos shows mais apoteóticos já vistos.

Fiz essa playlist que abrange a extensa e variada carreira do Queen, passando por todas as suas fases. Recomendo uma ouvida em toda a sua discografia, mas para quem está começando a se aventurar pelo trabalho da banda, essas 20 faixas são uma boa pedida. Divirta-se!

 


Disco da Madrugada: Phil Upchurch - Darkness, Darkness (1972)

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Sou um apaixonado pela madrugada. Para mim não existe hora melhor para conversar, ver um bom filme, escrever, jogar, e obviamente ouvir música. Como tenho um gosto musical bastante extenso, e basicamente uma relação quase doentia com esse universo, quando vai chegando a uma certa hora, gosto de ouvir apenas um determinado tipo de som, mais calmo, sem muito barulho, sem muita energia. Tenho sempre em mãos uma discoteca básica que ponho para rodar nesses momentos, por isso resolvi criar essa seção para compartilhar esses álbuns com você, leitor, que também aprecia curtir um som tarde da noite.


Phil Upchurch foi um rodado músico de estúdio nos anos 60 e 70 que tocou com gigantes da música pop do período, entre eles B.B. King, Curtis Mayfield, Stan Getz e Quincy Jones. Em 1967, formou o grupo Rotary Connection, que seria o responsável pela sonoridade de Electric Mud, disco que ressuscitou a carreira do veterano Muddy Waters. Darkness, Darkness é seu sétimo trabalho solo, e sem dúvida o auge do guitarrista. Uma agradável mistura de soul, blues e jazz. Os excelentes músicos criam uma parede sonora com arranjos caprichadíssimos, servindo de apoio para que a guitarra funkeada e cheia de wah-wah de Upchurch brilhe e contagie o ouvinte desde o início. As faixas são longas, mas a performance é tão acima da média que quando se dá conta o disco já está no final. Passa voando. Mas o esquema aqui é na manha, pra ouvir sem pressa. Os músicos parecem estar divertindo em uma agradável e descompromissada jam. A sensação é de se estar ouvindo um grupo tocando em um clube de jazz americano, durante uma madrugada chuvosa. Apesar de trazer várias versões de outros compositores - e algumas de autoria própria - o disco é todo instrumental, o que é uma ótima pedida caso você esteja procurando apenas uma trilha sonora para trabalhar ou se concentrar.




Playlist TF - Funk/Soul

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Desde que comecei a usar o Spotify a um ano atrás, não parei mais. É um negócio viciante. O aplicativo conseguiu reunir a praticidade do streaming com excelente qualidade de áudio, boa interação entre os usuários e um sistema de cache e recomendações igual ao do lastFM, de uma maneira bastante dinâmica. Um dos recursos mais legais do Spotify é a criação de playlists. Não passo um dia sem montar uma nova, seja pra reunir algumas faixas favoritas ou elencar discos que quero ouvir. Começo essa série de posts com a primeira playlist que fiz, dedicada ao soul e funk das antigas. São mais de 7 horas e 108 faixas de guitarras sacolejantes, linhas de baixo gordurosas, grandes vozes e muito groove. GET DOWN!

   




Cinco Discos Para Conhecer: Stoner Rock - Parte 2

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Texto publicado originalmente no site Consultoria do Rock

Spiritual Beggars – Ad Astra [2000]
Formado na Suécia, o Spiritual Beggars começou como um novo projeto do guitarrista Michael Ammott após deixar o Carcass. Trazendo um som totalmente diferente de sua antiga banda, o grupo busca toda a  inspiração lá nos anos 70, com um trabalho de guitarras encorpado e muito groove.  Escolhi esse disco basicamente por ser o meu favorito e o que considero o mais cativante, além de ter o vocalista Christian “Spice” Sjöstransd, cujo timbre combina agressividade e melodia, como o estilo pede.  Esse é o último registro de Spice que seria substítuido por JB, e mais tarde deixaria o posto para Apollo Papathanasio, que assume os vocais atualmente. O Spiritual Beggars é um dos melhores representantes do gênero e merece uma ouvida em toda a sua ótima discografia.

Nebula - Charged [2001]

Ao deixarem o lendário grupo Fu Manchu, o baterista Ruben Romano e o guitarrista Eddie Glass montaram o Nebula, no final dos anos 90. O trio une uma porrada de riffs ao som do Blue Cheer e tudo isso com a energia de uma banda de garagem. O trabalho de guitarras de Eddie Glass é acima da média. Os três primeiros discos são impecáveis, mas escolhi Charged por trazer a crueza do primeiro disco, com composições mais bem elaboradas e um pé a mais na psicodelia. A banda lançou quatro álbuns e quatro EPs e em 2010 entrou num hiato, que se arrasta até hoje, infelizmente.


Dead Meadow – Dead Meadow [2001]
Enquanto a maioria dos grupos de stoner tem sua sonoridade baseada em riffs e com forte influência de Black Sabbath, o Dead Meadow explora o lado mais psicodélico do gênero, soando como um Pink Floyd mais encorpado. O grupo investe em passagens atmosféricas, longos solos de guitarra, psicodelia, muito (muito mesmo) wah-wah, e fuzz. Ao longo de sua discografia, a banda foi deixando o som cada vez menos pesado e mais voltado às viagens sonoras com um apelo até certo ponto acessível. Seu disco de estreia fica como o registro mais representativo do quarteto de Washington DC.


Torche – Harmonicraft [2012]
O Torche é uma banda curiosa. Mesmo tendo uma sonoridade típica do gênero, com muitos riffs, guitarras droppadas e passagens viajantes,o grupo não abre mão de belas melodias, canções curtas e refrãos grudentos. Para quem não aprecia tanto o lado mais psicodélico, as longas jams e viagens que fazem parte do estilo, o Torche pode ser uma boa indicação, ao menos para começar a entrar nesse mundo chapado. A banda tem quatro discos no currículo, todos de alto nível, mas indico o último trabalho dos caras, que cativa de primeira.



Melvins – Houdini [1993]
Erroneamente classificado como “grunge”, assim como milhares de outras bandas da cena indepente dos anos 90, o Melvins tem uma discografia pra lá de extensa e Houdini é o melhor e mais representativo registro. O som desse trio de Washington é uma mistureba só. Tem hardcore, doom metal, sludge, hard e mais uma porrada de coisas. No fim das contas o Melvins faz barulho, e dos bons. Apesar de ter outro disco maravilhoso, com o sugestivo nome de Stoner Witch (1994), ainda classifico esse álbum de 94 como o auge da banda. Destaque para a versão de “Goin’ Blind” do Kiss.

Cinco Discos Para Conhecer: Stoner Rock - Parte 1

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Texto publicado originalmente no site Consultoria do Rock

Bruno Marise

Existem inúmeras versões e definições a respeito do surgimento do chamado Stoner Rock. Mas a primeira vez que o termo foi usado, foi em 1997, ao batizar a coletânea Burn One Up! Music for Stoners, da Roadrunner Records. Enquanto gênero, ele realmente surgiu e se popularizou a partir da década de 90, porém todas as suas influências e características datam dos empoeirados anos 70. O interessante dessa vertente, é que apesar de conseguir agregar inúmeras bandas, ela é bastante abrangente. Se fossemos tentar defini-lo, seria uma mistura de doom metal, psicodelia, space rock e blues. As características em comum estão nas canções baseadas em riffs, pedindo toda a benção a Tony Iommi, uso constante de pedal wah-wah e fuzz, produção simples e cru e letras sobre drogas (daí o termo “stoner” que é uma denominação pejorativa, algo como “maconheiro”), misticismo, sexo ou as vezes um amontoado de palavras sem muito sentido. Exatamente por ser um nicho tão difuso, resolvi dividir esse post em duas partes, indicando os dez discos que representam um pouco de cada área desse gênero tão cativante. Boa viagem, bro!

Black Sabbath – Master Of Reality [1971]
Mesmo tendo sido lançado numa época em que tudo era taxado apenas como Hard Rock, Master Of Reality é sem dúvida o marco zero do stoner rock. Toda banda do gênero deve as calças ao Black Sabbath da fase Ozzy. Esse é o disco Stoner por excelência, praticamente uma cartilha. Está tudo ali: Os riffs encorpados, maconha (“Sweet Leaf”), faixas viajantes (“Orchid” e “Solitude”), cozinha pesada. Se nos dois primeiros discos a influência de blues e jazz ainda eram evidentes no som dos maloqueiros de Birmingham, aqui foi que o caldo engrossou. 42 anos se passaram e poucas vezes ouviu-se um som de guitarra tão pesado. Disco obrigatório pra qualquer um que queira fazer esse tipo de música.

 

Kyuss – Welcome to Sky Valley [1994]
Depois do Black Sabbath, o Kyuss é sem dúvida a banda mais cultuada da cena stoner. Em 1992 o quarteto de Palm Desert deixou os cabeludos maravilhados com o peso de Blues For The Red Sun. Na época, a banda chegou a ser rotulada de “desert rock”. Mas foi com o terceiro disco que eles atingiram o auge, com uma tracklist dividida em três suítes de várias partes cada. O brilhante e ainda adolescente guitarrista Josh Homme consegue mesclar riffs monolíticos a la Black Sabbath com passagens viajantes e psicodélicas, tudo em afinação droppada e usando amplificadores de baixo pra deixar tudo mais pesado e grave. Apesar de sempre ter rejeitado o rótulo stoner, o Kyuss foi importantíssimo para o desenvolvimento e popularização do gênero, que cresceria anos 90 a dentro. A banda encerrou as atividades em 1995, se desmembrando em vários outros grupos entre eles o Queens Of The Stone Age, Fu Manchu, Mondo Generator, Unida, Dwarves e Eagles Of Death Metal.

 
Down – NOLA [1995]
O que era apenas um projeto entre amigos de New Orleans, acabou se tornando um dos supergrupos mais legais dos anos 90. Formado em 1991 por Phil Anselmo (Pantera) nos vocais, Kirk Windstein (Crowbar) e Pepper Keenan (Corrosion of Conformity) nas guitarras, Todd Strange no baixo e Jimmy Bower (Eyehategod) na bateria, o Down lançou seu disco de estréia em 1995, período em que o vocalista estava afundado nas drogas e havia se distanciado dos membros do Pantera. Com influências fortes de Black Sabbath, Pentagram e Saint Vitus, a banda já de cara entrega uma obra-prima do gênero, com as guitarras massacrantes de Windstein, o timbre matador de Keenan, o sempre poderoso vocal de Anselmo e uns toques de southern rock. Entre idas e vindas, o Down lançou mais dois discos bem interessantes, mas nunca conseguiu igualar a qualidade de NOLA, representante mais sombrio dessa lista, com a sonoridade puxada para o doom metal e as letras pessoais e diretas de Phil Anselmo

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Corrosion Of Conformity – Deliverance [1994]
O COC Começou como uma banda de Hardcore lá nos anos 80, e ao longo do tempo foi mudando totalmente sua sonoridade. Passou por uma fase thrash/crossover com o disco Animalize (1985), e com a entrada do guitarrista Pepper Keenan em 1991, foi mudando para um som cada vez mais próximo do então chamado stoner. Com o disco Blind, a banda manteve a pegada thrash, mas deu uma pisada no freio, deixando as canções mais pesadas e cadenciadas. Só no disco seguinte, Deliverance, com Keenan assumindo os vocais e a liderança criativa da banda, que o Corrossion Of Conformity investiu nos riffs e grooves típicos da década de 70, além de outros elementos, como wah-wah, fuzz e guitarras gêmeas solando. Nos trabalhos seguintes, a banda continuaria a mudar o som, sempre transitando entre o hard setentista e o metal, mas Deliverance fica como o registro mais representativo do stoner e uma das melhores obras de Pepper Keenan, com um timbre de guitarra inacreditável.



 

Monster Magnet – Dopes to Infinity [1995]
Muitos indicariam o chapadíssimo Spine Of God(1992), que segundo a lenda foi gravado com o líder e vocalista da banda Dave Wyndorf sob o efeito de todas as drogas possíveis. Talvez o mais indicado para conhecer o trabalho seja o hardão de Powertrip(1998), mas sem dúvida o mais bem acabado e com as melhores composições dessa fase, é Dopes to Infinity (nome lindo). Nesse disco, a banda conseguiu unir o clima viajante dos trabalhos anteriores com elementos de hard rock e as melodias vocais de Wyndorf. É um álbum stoner por excelência: Drogas, riffs, wah-wah, psicodelia e viajandices pra ninguém botar defeito.

 

Discografia Comentada - Big Star

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Texto publicado originalmente no site Consultoria do Rock

Bruno Marise

O Big Star é daquelas bandas injustiçadíssimas. O grupo foi formado em 1971 nos EUA, pela dupla de compositores Chris Bell (guitarra) e  o ex-Box Tops Alex Chilton (guitarra e vocais) em conjunto com o baterista Jody Stephens e o baixista Andy Hummel. Com um som altamente melódico, recheado de harmonias e guitarras vibrantes, o Big Star seria um dos pioneiros do chamado Power Pop, que se estabeleceria alguns anos mais tarde. Apesar de sempre aclamado pela crítica, o quarteto foi um gigantesco fracasso comercial, e durou pouquíssimo tempo. Nas décadas seguintes, com a explosão do rock alternativo, diversos nomes como R.E.M., The Replacements, Teenage Funclub e Wilco passaram a citar o Big Star como uma grande influência, o que resultaria em uma reunião do grupo nos anos 90. Hoje, mais de 40 anos depois de sua formação, o Big Star vem sendo reconhecido finalmente como uma das melhores e mais influentes acontecimentos dos anos 70, inclusive tendo um documentário contando sua história com o sugestivo subtítulo de “The Greatest Band That Never Made”. Como li certa vez, “Em um mundo ideal, o Big Star seria considerada uma das melhores bandas do mundo”. Apesar de uma carreira curtíssima, o quarteto deixou pelo menos três discos impecáveis, de nível altíssimo e influência indiscutível.

#1 Record [1972]
O disco de estreia do Big Star já é há algum tempo celebrado como um dos melhores trabalhos dos anos 70, mas na época de seu lançamento não foi isso que as vendas refletiram. O álbum traz a colaboração plena entre Chris Bell e Alex Chilton, que assinam dez das onze faixas, sempre alternado os vocais. “Feel” abre a bolacha com guitarras stonianas, os vocais chorosos de Bell e naipe de metais. “In The Street”, também de Bell, ficou famosa por ser a abertura da série de comédia That 70′s Show, originalmente na versão do Big Star e depois em uma regravação do Cheap Trick.  Chris Bell ainda contribui com os rocks “Don’t Lie to Me” e “My Life is Right”, e a maravilhosa e melancólica “Try Again”. Alex Chilton vem com a afiada “When My Baby’s Beside Me”, as tristes baladas  “Thirteen” e “Give Me Another Chance”, e a grudenta “The Ballad Of El Goodo”, um deleite para quem aprecia harmonias vocais. Composta pelo baixista Andy Hummel, “The India Song” é a única que destoa no disco, com um clima mais folk, ditado pela flauta. Os pops “Watch The Sunrise” e “ST100/6″, colaboração entre Bell e Chilton fecham o disco. #1 Record é o único álbum da banda com a participação plena de Chris Bell, tanto nas guitarras, quanto nos vocais e composições, além de seu trabalho intenso na produção, cuidando de cada detalhe da mixagem e gravação. Apesar da boa recepção pela crítica, a Stax não se esforçou em divulgar o disco, e as vendas despencaram. Extremamente decepcionado com o fracasso comercial e querendo evitar uma iminente rixa com Alex Chilton, Bell deixou a banda em 1972, e se afundou de vez na depressão que já o atormentava há algum tempo. O compositor lutou com a doença e o vício em heroína até o fim da vida, quando faleceu precocemente em um acidente de carro, aos 27 anos.

Radio City [1974]
Com a saída de Chris Bell, o Big Star tornou-se um trio, e Alex Chilton assume totalmente os vocais, a guitarra e boa parte das composiçõesDiferente do pop classudo e mega produzido de#1 RecordRadio City é um disco mais cru, direto, com produção simples e uma sonoridade que se aproxima ainda mais do que viria a ser o power pop. Mesmo perdendo um de seus principais compositores, o Big Star não baixou o nível e Chilton segurou a bronca com louvor, entregando composições ainda melhores que a do disco anterior. A guitarra em “O’ My Soul” influenciou 11 entre 10 bandas do rock alternativo dos anos 80 e 90. Apesar de ser um trabalho mais “roqueiro”, Radio City tem um clima geral de melancolia, que toma conta de praticamente todas as faixas, refletindo o ambiente de uma banda já em frangalhos. O disco é tão bom, que fica difícil citar apenas alguns destaques. Particularmente, gosto mais desse do que de #1 Record, que é mais celebrado. Recomendo que ouçam Radio City e tentem perceber tudo o que as bandas de décadas posteriores aprenderam com o Big Star.

Third/Sister Lovers [1985]


Radio City, sofreu do mesmo mal de#1 Record: Foi aclamado pela crítica, mas devido a péssima política de distribuição e divulgação do selo Ardent (subsidiário da Stax), foi um fracasso de vendas. O baixista Andy Hummel que estava na faculdade na época, optou por terminar os estudos, e também deixou a banda. Mesmo assim, Alex Chilton e Jody Stephens entraram em estúdio no mesmo ano para gravar o terceiro registro do Big Star. Muitos o consideram um disco solo de Chilton, mas como o compositor sempre foi grande responsável pela sonoridade da banda, então é bem justo que se considere esse trabalho como mais um do Big Star.  Se no álbum anterior o clima já era de melancolia, Third/Sister Lovers é praticamente um luto, refletindo todo o emocional afetado de Chilton. Já sem nenhuma pretensão de sucesso, a dupla remanescente do Big Star investe em algumas canções mais experimentais e temas sombrios. Ouça “Big Black Car” e “Holocaust” e tente não se comover com a tristeza na voz de Chilton. A falta de interesse da gravadora e dos próprios membros da banda fizeram com que o disco não fosse finalizado e as fitas ficaram arquivadas. Em 1978, com o Big Star já fora de cena, a PVC Records reuniu as gravações, e lançou o disco com o nome Third. A partir de 1985, sai uma nova prensagem, com capa diferente, faixas bônus e o nome de Third/Sister Lovers, que se tornaria a edição definitiva do terceiro álbum do Big Star.



In Space [2005]
Alguns meses após a gravação de Third/Sister Lovers, o Big Star se dissolveu de vez. Com a explosão do power pop e do rock alternativo nas décadas seguintes, inúmeras bandas citavam o Big Star como grande influência. Com isso, Chilton e Stephens se reuniram com o guitarrista Jon Auer e o baixista Ken Stringfellow do The Posies, e reformaram a banda. Em 2004, depois de quase 30 anos sem gravar material inédito, a nova formação do Big Star lança In Space. Apesar de não ter o mesmo frescor e qualidade dos discos clássicos, traz todos os elementos já conhecidos da banda: Ganchos melódicos, harmonias vocais e as guitarras afiadas e vocais marcantes de Alex Chilton. A banda continuou na ativa até 2010, quando Chilton foi internado em março com problemas no coração, vindo a falecer no dia 17. O Big Star tinha um show marcado na mesma semana no SXSW Festival, e os membros remanescentes tocaram mesmo assim, dedicando a apresentação à Chilton, com várias participações especiais. Em julho do mesmo ano, o ex-baxista Andy Hummel foi diagnosticado com câncer e também acabou morrendo, deixando Stephens como único membro vivo do grupo.